Crônicas
Contos de uma cidade real - A Lagoa (Parte II)
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Roberty Lauar

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Caros leitores. Assim que mencionei para o Ângelo Couto aquelas palavras: - Acode! Acode! O mesmo, como que num átimo; numa fração de segundos, desaparece de meu campo visual. Pareceu-me o The Flash “apertado”. Fiquei sem entender. Será que tinha ido buscar ajuda ou será que tinha fugido? De minha testa brotava um suor gélido.

O coração batia descompassado. Sentia-me sobressaltado e com medo. Há todo momento mais e mais pessoas passavam correndo em direção à Praça Dr. Lund. Que visão dantesca! Uma massa descontrolada, com sede de vingança. Naquele momento pensei: - É possível que tenha mais de mil pessoas por lá, bradando, gritando freneticamente: - Vamos enforcar o bastardo, vamos acabar com a raça dele. Confesso que senti calafrios e num gesto automático levei as mãos ao pescoço e tive a desagradável sensação de que me faltava o ar. Imaginei aquela corda grossa envolta em meu pescoço, apertando os ossos frágeis da minha garganta e senti que ia desfalecer.

Parecia-me ouvir o povo gritando, como se fora eu o justiçado: - Bastardo, vá pro inferno, vá para o Diabo que o carregue, você já era! A imagem do cadafalso aflorou em minha mente, o patíbulo... A forca! Aquela cena aterrorizadora ficou retida em inha memória por muito tempo. Incontinenti uma sensação de desconforto invade minha alma; pensei em correr para a Santa Casa. Elevei meu pensamento em prece a Santa Margarida e lembrei-me então do caritativo Ernany Camilo, aquele que a tudo provê: - Ele não me faltaria jamais! Haveria de conseguir-me consulta de urgência, que servisse para revigorar meu coração enfraquecido. Estava a ponto de ter um ataque cardíaco! Quando dei por mim estava na Rua Acadêmico Nilo Figueiredo, a principal rua do comércio local.

Mesmo em meio a esse turbilhão que envolvia meu ser, algo me chamou a atenção – Por que o nome dessa rua é Acadêmico Nilo Figueiredo? Tempos atrás, tive a curiosidade em saber quem foi esse personagem. Qual a sua contribuição para a cidade? Lembro-me que uma vez procurei no Google e só encontrei um Acadêmico Nilo Figueiredo, que foi Presidente da Portela - Sim, aquela Portela, a Escola de Samba do Rio de Janeiro, que tem sua sede lá em Madureira. Tentei ver se havia outro Acadêmico Nilo Figueiredo com passagem pela Academia Brasileira de Letras ou Mineira ou Lagoassantense... E não encontrei. De quem teria sido a Lei que deu esse nome a essa rua tão extensa e importante de nossa cidade? Senti-me um reles ignorante, pois não sabia quem tinha sido o Acadêmico Nilo Figueiredo. Pensei com meus botões será que não poderíamos colocar também cartazes de “Procura-se”, tentando encontrar quem soubesse algo sobre o Nilo Figueiredo.

Depois que acabar essa confusão que estremece Lagoa Santa, com certeza vou me informar, acho que vou recorrer ao Dr. Ajax, ele deve saber. Ainda em estado catatônico, lembro-me que passei em frente à ADM - Financeira, dos grandes irmãos Dolabela. Vi dois pares de olhos miudinhos piscando por baixo da porta semi cerrada e pensei, seriam eles, o Paulo e o João, espiando a turba enfurecida? Logo adiante vi a Virgínia da Casa Patrícia saindo rápido de sua empresa, carregando um pacote cor de rosa debaixo do braço, entrou em seu carro e saiu em desabalada carreira. Transtornado, olhava para todos os lados em busca de informações, mas parecia que todos fugiam de mim. De repente lembrei-me da Tratex, se a cidade estava precisando de segurança, por que não ligar para o Romis, ele poderia ajudar de alguma forma. Procurei meu celular e não achei! Deve ter caído em algum lugar? Senti medo de voltar para procurar. Aquela comoção; aquela revolta; aquele povo correndo, gritando, metia-me medo.

Ainda em meio a pensamentos desconexos, ao longe escuto um som que me pareceu familiar. Seria corneta? Pareceu-me ouvir um leve tropel. Fiquei intrigado, o que poderia ser aquilo? O chão estremecia. De repente vejo uma sombra, aquela silhueta... Seria um lobo? Atrás daquela figura amorfa percebi alguém montado em um cavalo baio imponente, trajando uma elegante camisa estampadona... Abri um largo sorriso, era o Ângelo Couto.

Quase cheguei às lágrimas, quando percebi que o que parecia um lobo e que corria à frente de todos era o Rin Tin Tin. Logo divisei o melhor amigo daquele cão, o Cabo Rusty. Estremeci quando ouvi aquele grito de comando inconfundível “Yo Ho Rinty!” (lê-se assim: Ai ôu Rinty). Que emoção! A ajuda chegara. O Ângelo havia chegado ao Forte Apache e pedido socorro ao Ten. Rip Master. Vinha ao seu lado o valente Sgt. O’Hara.

Quem diria! Uma unidade de Cavalaria. Estamos salvos: - Pensei! O Ângelo devia tê-los conhecido quando foi da ACM - Associação Cristã de Moços. Em meio àquela euforia, certo de que aquela confusão da forca terminaria logo, eis que ouvimos uma freada ensurdecedora seguida de um baque surdo... Algo voa alguns metros e cai. A corneta emudeceu. Os olhares se dirigiram a um só ponto. O Cabo Rusty apeia célere de seu cavalo malhado, seguido pelo Ten. Rip Master; ajoelham-se, e aquela imagem triste, nunca mais se apagará de minha mente. O herói Rin Tin Tin estava estirado no chão, inerte.

Continua
 
 
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